Segredos estruturantes e desestruturantes
“O segredo se torna patológico quando deixamos de ser seus guardiões e nos tornamos seus prisioneiros.” Serge Tisseron
Todos temos segredos. Eles fazem parte da máscara social que Carl Gustav Jung chamou de Persona (máscara usada pelos atores no teatro grego), para designar o sistema de adaptação através do qual nos comunicamos com o mundo exterior. É o papel que assumimos nas relações sociais para esconder (…) o rosto que nunca mostramos ao mundo, pois o ocultamos com o auxílio da Persona, a máscara do ator.
Na medida em que nos identificamos totalmente com essa atitude externa, o indivíduo pode enganar não só os outros sobre seu verdadeiro caráter, mas também a si mesmo. Ele assume uma máscara que sabe corresponder, de um lado, às suas intenções e, de outro, às exigências e expectativas do seu ambiente. Essa máscara — ou atitude assumida — Jung chamou de Persona.
Assim como a máscara, os segredos protegem nossa intimidade do olhar indiscreto dos outros.
Segundo Serge Tisseron, o momento em que a criança começa a mentir para os pais é crucial para seu desenvolvimento psíquico. É nesse instante que se forma um espaço pessoal, permitindo que ela se diferencie e saia da simbiose.
Alguns segredos são úteis ao desenvolvimento do indivíduo — são estruturantes — como, por exemplo, o segredo sobre a sexualidade dos pais.
O direito ao segredo, tanto de adultos quanto de crianças, é essencial porque protege a intimidade e é a primeira condição para que se possa pensar por si e para si.
Regimes totalitários têm como característica comum a tentativa de controlar a vida privada dos indivíduos e abolir a barreira protetora do segredo individual.
(Serge Tisseron, citado por Marie Anaut em “Soigner la famille”, p. 162)
Segredos familiares também são estímulos poderosos à criatividade: a criança investiga, questiona e, assim, desenvolve suas capacidades cognitivas.
Freud, ao estudar a infância de Leonardo da Vinci, observou que segredos de família despertam curiosidade intelectual.
Marie Anaut, psicóloga clínica e terapeuta sistêmica francesa, afirma: “A maioria dos gênios percorreu o labirinto das perguntas deixadas pelas lacunas da árvore genealógica, mas também experimentou a intensidade das histórias marcadas por abandonos e reconhecimentos.”
Segundo Anaut, descobrir um segredo não é automaticamente libertador. Só o trabalho de elaboração — compreender o sentido do segredo, sua função na família e seu valor para quem o criou — pode ajudar a superar os efeitos negativos do não-dito.
Alguns segredos têm função protetora: funcionam como escudos que evitam uma dor ainda maior, muitas vezes escondendo outro segredo ainda mais doloroso.
Quando o segredo está ligado a uma dor indizível ou à repressão de um trauma, pode tornar-se um fantasma psíquico que assombra os descendentes por gerações — como demonstraram Nicolas Abraham e Maria Torok em “A Casca e o Núcleo”.
O segredo se torna patológico quando interfere intensamente na comunicação familiar, gerando zonas de sombra e silêncios perturbadores — como mostram os casos clínicos de Ivan Boszormenyi-Nagy no livro Lealdades Invisíveis, escrito com Geraldine Spark.
Mesmo quando criado para proteger os outros da dor ou vergonha, o segredo impede qualquer diálogo relacionado ao tema oculto. Até mesmo falar de eventos vagamente ligados ao assunto se torna impossível.
Nem todo segredo é patológico.
Seu impacto depende da natureza do segredo e do grau de estagnação relacional que ele provoca.
Marie Anaut destaca que segredos familiares podem impedir o desenvolvimento psicológico da criança, causando distúrbios no comportamento e na formação da personalidade.
Os mensagens contraditórias características dos segredos — diz-se e não se diz, sussurra-se entre adultos, muda-se de assunto quando a criança se aproxima — criam uma comunicação paradoxal: a criança intui algo, mas não pode falar.
Ela fala da “porosidade do segredo”: em sua prática clínica, presenciou pais que, diante dos filhos pequenos, discutiam abertamente o conteúdo do segredo, dizendo que “quando ele for maior, contaremos a verdade” — como se a criança não estivesse já captando a dor presente.
Françoise Dolto afirmava que são necessárias três gerações de não comunicação para criar uma criança psicótica.
“Todo segredo de família, por mais bem-intencionado que seja, é sempre vivido como uma violência pela criança. Uma violência que ela jamais esquecerá e que marcará profundamente sua vida psíquica — e, por consequência, sua vida amorosa, profissional e social.”
Quando o guardião do segredo não consegue falar sobre ele, é porque este serve como barreira emocional contra um sofrimento insuportável.
É o caso de soldados que voltaram da guerra ou de sobreviventes do Holocausto: evitam contar suas experiências traumáticas para se protegerem do horror vivido e protegerem os outros do sofrimento de ouvir.
Mas o silêncio gera dissociação psíquica: de um lado, apaga-se racionalmente a memória; de outro, a dor permanece viva e influencia o presente.
Guy Ausloos, psiquiatra belga, descreve o paradoxo: “É proibido saber, mas também é proibido esquecer.”
Em suas pesquisas com famílias de jovens delinquentes e dependentes químicos, observou que 72% continham segredos transgeracionais, e 52% segredos intergeracionais.
Segundo ele, o “ato delinquente” de alguns adolescentes seria uma encenação simbólica do segredo familiar não dito, uma tentativa inconsciente de revelá-lo de forma codificada — por isso, incompreensível.
Anne Ancelin Schützenberger dizia que os segredos que mais encontramos são os mesmos: roubos, incesto, internações psiquiátricas ou em presídios, falências, filhos fora do casamento, abuso sexual, homicídios, ou descendência de criminosos. Ela os chama de “segredos de Polichinelo”, pois todos sabem, mas ninguém fala. Basta fazer as perguntas certas para que o segredo venha à tona.
Mas isso vale principalmente para segredos intergeracionais. Quando o segredo é mais antigo, torna-se transgeracional, e tudo se complica.
Famílias são sistemas com leis próprias, como observa Nagy: a lealdade à família vem antes da moral social.
Por exemplo, em uma família onde o furto é aceito, o enriquecimento ilícito pode não ser um segredo — talvez até um orgulho. O segredo, portanto, está relativizado pela cultura familiar.
Outro ponto importante é que alguns segredos deixam de ser considerados vergonhosos com o tempo. Ser homossexual, por exemplo, foi tabu durante muito tempo. Hoje, em muitos contextos, é aceito.
“Antes eu era judeu e perseguido. Hoje continuo judeu, mas sou visto com interesse e empatia. Não fui eu que mudei, foi o olhar dos outros.”
— Boris Cyrulnik
Marie Anaut propõe quatro categorias de segredos:
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Sobre origens e filiação: filhos ilegítimos, adoções não reveladas, incesto, abortos, matrimônios ocultos.
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Por vergonha social: doenças mentais, homossexualidade, falência, alcoolismo, drogas, prisão, prostituição.
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Sobre a morte: suicídio, homicídio, guerras, infanticídios.
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Sobre violência sexual: abusos, incesto, estupros.
Como identificar a existência de um segredo familiar?
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Quando há lacunas no relato familiar.
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Quando certos personagens desaparecem da história.
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Quando pais, avós ou tios mudam de assunto diante de certas perguntas.
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Quando há sentimentos inexplicáveis de confusão, vergonha ou culpa.
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Quando a criança inventa uma história para preencher os vazios.
Dolto dizia:
“A criança sempre intui sua história. Quando a verdade é dita, ela constrói.”
Repetições de padrões em várias gerações também sinalizam segredos transgeracionais. O inconsciente familiar se manifesta através de sintomas, padrões ou repetições.
Sobre a transmissão do segredo:
“Porque eu sou o Senhor teu Deus, um Deus ciumento, que castiga a culpa dos pais nos filhos até a terceira e quarta geração.”
— Êxodo 20:5
O segredo pode se transformar em trauma psíquico ao longo de gerações, caso não seja elaborado. O luto, por exemplo, só se supera ao se viver plenamente a dor, jamais pela negação ou evasão.
Segundo Boris Cyrulnik, “quem vive plenamente um luto, expande seu espaço interior e reencontra capacidade para amar e viver.”
Quando o sofrimento é reprimido, instala-se uma cisão psíquica: uma parte racional nega; outra parte sofre. Isso gera sintomas, fobias, bloqueios e pode afetar a fertilidade, a saúde e a transmissão entre gerações.
Tisseron sugere que após três gerações, o segredo desaparece. Mas a autora do texto propõe que, em vez disso, ele muda de forma e continua, pois filhos de famílias com segredos tendem a criar novos, por lealdade inconsciente.