Este texto nasce de uma reflexão sobre a natureza humana e sobre o paradoxo que a constitui: somos seres capazes de amar, vincular e conectar, mas também carregamos em nós forças orientadas à sobrevivência e à autopreservação. “Somos filhos de Deus, mas educados pelo Diabo” (Oliveira, 2026)[1]. Ao nascer, a criança funciona através de um aparelho psíquico imaturo, primitivo, instintivo, impulsivo, inconsciente, dependente, narcísico e ambíguo. Vive guiada por um Ego ainda frágil, que busca a satisfação de suas necessidades e prazeres, aprendendo a amar somente mais tarde, no reconhecimento da existência de um outro humano.
Porém, ao longo da sua vida, o indivíduo pode evoluir, se humanizar: amadurecer, tornar-se consciente das suas forças inconscientes, desenvolver a habilidade reflexiva, tornar-se autorresponsável e construir maior autonomia para se relacionar com a vida e com os outros.
Essa possibilidade de amadurecimento, no entanto, convive com uma base biológica mais resistente à mudança, como aponta Bloom em seu livro[2]. Para este autor, “talvez o Homo sapiens seja uma espécie hierárquica, assim como alguns dos grandes primatas. Estamos programados para a dominação e a submissão”. Este autor diz que “possuímos instintos desagradáveis, que podem se transformar em maldade”. Segundo ele, a moralidade não é inerente ao ser humano, mas resulta de um processo de aprendizagem e desenvolvimento – “são produtos da evolução biológica”.
O indivíduo passa a viver, inevitavelmente, em relações de poder, nas quais o desafio não está na ausência dessas forças, amor e poder, mas na capacidade de reconhecê-las, integrá-las e transformá-las em formas de relação que não inviabilizem o vínculo afetivo.
A partir dos pensamentos de Jung[3], podemos compreender a dinâmica psíquica como atravessada pela tensão entre forças que buscam o vínculo/amor e a vontade de poder. A interação entre essas forças, que não são necessariamente opostas, mas pólos complementares, produz uma tensão que atravessa, silenciosa e implicitamente, as relações humanas. Nessa dinâmica, uma força pode sobressair à outra, gerando movimentos de compensação entre os opostos. Para ele, “Onde reina o amor, não há vontade de poder; e onde a vontade de poder predomina, falta o amor. Um é apenas a sombra do outro”[4].
Já o filósofo e sociólogo Edgar Morin, baseado na sua teoria do pensamento complexo, compreende o poder como um fenômeno relacional e ambivalente, fiando o tecido social. Para ele, o poder se revela na complexidade da relação entre as dimensões da competição e da colaboração. É nessa tensão entre pólos, simultaneamente antagônicos e complementares, que o homem se constitui e opera no cotidiano.
Mas como essas forças circulam em uma relação? Como se articulam o amor e o poder? Em que momentos uma delas predomina? De que modo amor e poder se manifestam e se transformam no interior de cada vínculo?
À medida que se compreende o funcionamento humano, podemos entender que que essas forças não precisam ser reduzidas ou eliminadas, e sim podem/precisam ser integradas para o desenvolvimento da totalidade da alma humana. Compreender essa dualidade pode constituir, talvez, o movimento mais autêntico que um ser humano pode fazer em direção a si mesmo e aos outros, para ir além, para desdobrar no seu processo evolutivo.
Entende-se por poder “uma força que se exerce” sobre algo ou alguém, capaz de influenciar e orientar as ações do indivíduo em determinados contextos. Foucault[5] contribui para ampliar essa compreensão ao propor que o poder não é simplesmente algo que uma pessoa possui enquanto outra não possui. O poder se constitui nas relações: é exercido, circula e se transforma na dinâmica relacional, muitas vezes de maneira sutil e pouco consciente. Assim, em uma relação, podemos perguntar: quem define o que é “normal”, o que pode e o que não pode? Quem nomeia o problema? Quem tem maior possibilidade de ir embora? Quem precisa mais do outro? Quem determina quando há proximidade? Quem define o ritmo da intimidade? Quem pode expressar raiva? Quem precisa ceder? Quem é autorizado ou proibido de desejar? Quem interpreta o comportamento do outro? Quem possui maior capacidade de produzir culpa, medo ou desejo?
As relações de poder acontecem, portanto, o tempo todo. Essa dinâmica também pode ser compreendida a partir daquilo que Oliveira[6] denomina como a relação do poder com o lugar que se ocupa no tempo: “O poder está intrinsecamente ligado ao lugar que se ocupa no tempo”. O poder está, assim, relacionado ao papel que o indivíduo desempenha em determinado contexto e à posição que ocupa na relação. Nessa perspectiva, ele não é, em si mesmo, positivo ou negativo. Pode produzir construção, autonomia e vínculo, mas também pode assumir formas de controle, destruição e dominação.
Contudo, não há problema em desejar poder, ele não é positivo nem negativo; é uma dimensão existente na relação. O problema emerge quando o poder deixa de circular e passa a se cristalizar em uma posição de controle sobre o outro. O que importa é compreender como o poder circula na relação, como é exercido, negociado e redistribuído entre os sujeitos. Talvez seja justamente a fantasia de controle absoluto que transforme o poder em dominação. Como afirma Oliveira: “Ser humano tem muitos delírios, acredita que controla, que comanda o mundo. Que tudo tem que ser do seu jeito. Não relaciona com a vida”.
Assim, podemos pensar em diferentes modalidades de exercício do poder nas relações afetivas. Há um poder sobre, quando a potência de um sujeito se afirma mediante o controle, a imposição ou a determinação sobre o outro; e há um poder com, quando as potências individuais podem coexistir, ser reconhecidas e negociadas na relação. Nesta segunda configuração, o poder não desaparece: ele se torna relativo, móvel e compartilhado, distribuindo-se de acordo com os lugares, os papéis e os contextos que constituem a relação.
E, é nessa articulação entre amor e poder, que os opostos podem dançar harmoniosamente. O amor diz respeito à capacidade de relacionar-se, perguntar, propor, negociar, trocar e considerar o outro. Implica participação, escuta, acolhimento e respeito; pressupõe a possibilidade de coconstruir com aquele que é diferente de mim. Sou eu e o outro. A existência do outro não ameaça a minha potência, mas participa da construção do vínculo. Para que isso seja possível, torna-se necessário reconhecer a alteridade e a potência do outro e, simultaneamente, renunciar às ilusões e idealizações que sustentam uma posição narcísica de excepcionalidade ou de controle.
O amor, nessa perspectiva, é movimento, abertura e possibilidade de transformação; o poder absoluto, ao contrário, tende a agarrar, fixar, controlar e dominar. Quando o poder se torna absoluto, o outro deixa de ser reconhecido em sua alteridade e pode ser reduzido a objeto de controle, apego ou coisificação. Quando o poder se torna relativo, abre-se a possibilidade de negociação, reciprocidade e reconhecimento.
A partir dessas ideias, podemos pensar que a relação afetiva pode transformar o poder absoluto em poder relativo: não eliminando o poder da relação, mas permitindo que ele circule entre os sujeitos, de acordo com os lugares, papéis, necessidades e contextos que se apresentam. O desafio não é, portanto, viver sem poder, mas construir uma relação na qual a potência de um não precise da submissão do outro para existir.
Há, ainda, um paradoxo fundamental: o próprio amor pode tornar-se dispositivo de poder quando o vínculo, o cuidado, a necessidade ou a promessa de proteção são utilizados para controlar, restringir ou capturar o outro. Essa questão, por sua complexidade, é assunto para um outro texto.
[1] Ideias retiradas dos cursos ministrados pela psicóloga Jaqueline Cássia de Oliveira (2011-2026).
[2] BLOOM; Paul. Livro O que nos faz bons ou maus. Ed: BestSeller, 2014.
[3] Carl Gustav Jung, psiquiatra e psicoterapeuta suíço. Pai da Análise Junguiana (1875-1961).
[4] Citação retirada da internet: JUNG, C. G. Psychological Types. Collected Works of C. G. Jung, vol. 6. Princeton: Princeton University Press.
[5] FOUCAULT, Michel. https://www.casadosaber.com.br/blog/poder-em-foucault-o-que-e-saber-poder-microfisica-e-biopoder#o-que-e-poder-para-foucault. Acesso no dia 12/08/2026.
[6] Curso de formação em TCT- Terapia de Casal e Transgeracional ministrado pela Psicóloga Jaqueline Cássia de Oliveira. 2026.